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Orçamento de TI: como planejar, defender e medir o retorno

Como planejar o orçamento de TI, decidir entre terceirizar ou internalizar, defender ROI para a diretoria e centralizar itens de infraestrutura. Painel com 5

Neste artigo

Duas barras lado a lado, planejado e realizado, com moedas douradas ao lado, representando o orcamento de TI

O orçamento de TI tem um problema de imagem. A diretoria tende a encarar cada linha como "gasto inevitável" e o gestor de tecnologia frequentemente não sabe como traduzir necessidade técnica em argumento financeiro. O resultado é o de sempre: corte no item errado, serviço instável no trimestre seguinte, e a TI voltando para pedir revisão orçamentária no meio do ano.

No terceiro dia da Semana do Planejamento Orçamentário de 2017, cinco gestores com décadas de experiência combinada se reuniram para discutir exatamente esse problema. Você assiste à conversa completa abaixo, e neste post a gente organiza os pontos que têm valor prático duradouro.

Capa do vídeo: Semana do Planejamento Orçamentário 2017 - Orçamento de TIVídeo · YouTube

Os cinco perfis que aparecem no painel

Cada participante trouxe um ângulo diferente, e entender de onde cada um fala ajuda a calibrar os conselhos:

  • Bruno (Suporta): empresa de terceirização de serviços de TI, responsável pelo orçamento de toda a empresa. Estava migrando de base histórica para orçamento base zero no ano do evento.
  • Bruno Leite (Resultados Digitais): co-fundador de uma plataforma de marketing com 120 pessoas. Empresa de crescimento acelerado, mistura histórico com comparação de mercado para projetar gasto em P&D.
  • João Vitor (Lear Corporation): gestor de TI de infraestrutura e suporte em uma multinacional automotiva com 8 mil funcionários na América do Sul. Opera com revisões mensais rigorosas e forte pressão de auditoria.
  • Julio Campos (Múndi): responsável por implantar cultura orçamentária em empresa com 2 mil funcionários. Faz revisões anuais e mensais.
  • Walfredo (iFlexion): carreira de quase dez anos em finanças, responsável por gestão de 14 pessoas, sendo 8 na área financeira. Conduziu o primeiro orçamento base zero da empresa no ano anterior.

Por que o base histórico deixa de ser confiável

O primeiro ponto que o painel levantou é que usar só dados históricos funciona por alguns ciclos, depois para de fazer sentido. O Bruno da Suporta explicou bem o mecanismo: o orçamento histórico cresce com índices de correção monetária (IGPM, inflação), mas a estratégia da empresa pode exigir que dinheiro seja redirecionado para uma área e reduzido em outra. Sem esse ajuste ativo, surgem duas distorções ao mesmo tempo: rubricas superestimadas em áreas que não precisam crescer e recursos subestimados em áreas críticas para a estratégia.

A decisão pelo orçamento base zero não foi por modismo. Foi porque a empresa chegou a um ponto de maturidade estratégica maior e quis criar um novo ponto de referência. A expectativa: que esse base zero sirva de histórico confiável nos próximos ciclos.

Para o Bruno Leite, em empresa de crescimento agressivo, o histórico tem papel diferente. A premissa parte de comparação com o mercado ("quanto se espera gastar em P&D para o estágio que estamos") e do crescimento esperado da receita. O histórico entra como âncora de previsibilidade nos itens que escalam linearmente com clientes ou usuários, não como projeção automática.

Terceirizar ou internalizar: a pergunta que o financeiro erra com frequência

O painel inteiro concordou num ponto: o critério de terceirização não deveria começar pelo custo. O Bruno da Suporta foi direto: a pergunta correta é "o que é feito melhor fora do que dentro de casa?". Quando uma atividade não é o núcleo do negócio da empresa e existe um fornecedor cuja especialidade é exatamente aquela atividade, a energia gasta para tentar fazer internamente tende a ser muito maior que o custo da contratação.

O erro típico que o Walfredo identificou ao analisar orçamentos de TI é exatamente o inverso: a empresa coloca o custo como primeiro filtro e esquece o critério de qualidade de entrega. O resultado é a empresa acumulando perdas de produtividade invisíveis, uma espécie de "infecção" que drena resultado sem que ninguém consiga apontar o causador.

Para quem está planejando, a sequência que faz sentido é:

  1. Definir o que é núcleo do negócio da TI naquela empresa
  2. Mapear o que seria melhor feito por um especialista externo
  3. Aí sim verificar se o custo da contratação cabe no orçamento

Isso muda a conversa com a diretoria: em vez de justificar o gasto, o gestor de TI mostra o risco de não investir.

Como centralizar o orçamento de TI sem perder o contexto de cada área

Uma das perguntas práticas do debate foi: itens como impressoras, periféricos e softwares de uso específico de uma área devem ficar no orçamento de TI ou na área usuária?

O painel chegou a um modelo que apareceu com pequenas variações em todas as empresas representadas:

  • A parte pesada de infraestrutura (servidores, links de dados, anel de comunicação, renovação de parque) fica com TI, que tem o conhecimento técnico para avaliar as alternativas.
  • Softwares e equipamentos que só uma área usa são levantados pela própria área, enviados para o gestor de TI para validação técnica, e então decididos em conjunto.
  • Custos operacionais específicos de uma unidade (como telefonia de uma fábrica) são cobrados da própria unidade, com TI fazendo o relacionamento com o fornecedor e depois transferindo o valor contabilmente.

O João Vitor fez um alerta que ficou: cuidado com o escopo crescendo além do razoável. Em algumas empresas, ar-condicionado (que existe para resfriar servidores) acaba indo para o orçamento de TI. Esse tipo de expansão desorganizada dilui a clareza de quem é responsável por quê e complica a defesa do orçamento para a diretoria.

ROI ou ROV: o que realmente defender para a diretoria

Este foi o ponto mais rico do debate. O Bruno Leite colocou no ar uma distinção que a maioria dos gestores de TI ignora: nem todo investimento de TI tem retorno de investimento mensurável. Para alguns, o que existe é retorno sobre o valor (ROV).

O servidor de e-mail é o exemplo que o João Vitor usou. Não adianta tentar calcular quanto de receita incremental a empresa vai ter por usar o Office 365 em vez de um servidor local. O que dá para mostrar é o valor entregue: segurança, backup fora do ambiente interno, responsabilidade transferida para um fornecedor especialista. Esse valor não gera uma linha de receita, mas remove riscos e eleva a qualidade do que o time de TI entrega para a operação.

A confusão entre ROI e ROV cria um problema na hora de defender o orçamento: o gestor de TI tenta provar retorno financeiro direto de investimentos que são, na prática, habilitadores de qualidade. A diretoria questiona porque não vê a conta fechar. A solução não é inventar um número, é mudar a linguagem da defesa.

Para investimentos em que o ROI é calculável (migração de telefonia para VoIP, troca de servidor por cloud), o cálculo faz sentido e deve ser apresentado. Para habilitadores de infraestrutura (antivírus, e-mail corporativo, link dedicado), o argumento é o risco evitado e o padrão de entrega que aquele investimento garante.

Tipo de investimento de TI Métrica adequada Exemplo do painel
Substituição com economia direta ROI (payback, redução de custo) Migração de telefonia convencional para VoIP
Infraestrutura habilitadora ROV (risco evitado, padrão de entrega) Servidor de e-mail corporativo, antivírus
Projetos de P&D / produto Business case com cenários Projetos estruturantes de longo prazo
Crescimento escalável Custo por unidade (usuário, cliente) Infraestrutura cloud vinculada à base de clientes

O risco cambial no orçamento de TI

O Jeferson Alves, da audiência, perguntou como se proteger do risco Brasil quando parte das despesas é em moeda estrangeira. O João Vitor e o Bruno Leite deram respostas complementares.

O João Vitor indicou a estratégia operacional: comprar no momento mais próximo da necessidade, negociar contratos com fornecedores internacionais para assegurar valores melhores e, quando possível, transferir compras entre unidades de países diferentes para aproveitar condições cambiais mais favoráveis.

O Bruno Leite adicionou a perspectiva de quem tem custo em cloud em dólar com meta interna em real: primeiro, negociar com o fornecedor para ter previsibilidade; segundo, identificar projetos internos que reduzam volume de consumo (o que reduz a exposição em dólar); terceiro, a empresa se proteger com algum nível de investimento dolarizado para amortecer as variações. Instrumentos financeiros de hedge (NDF, contratos futuros) são o caminho para quem tem exposição relevante.

O que os gestores apostavam para o ciclo seguinte

No fechamento do evento, cada participante apontou uma tendência. O que emerge como padrão:

  • Alinhamento orçamento-estratégia: o principal erro identificado por todos foi fazer orçamento sem ter a estratégia clara. Quando operacional, comercial e financeiro estão desalinhados, 80% de execução da estratégia pode gerar 0% do resultado esperado.
  • Produtividade como prioridade: o Walfredo destacou que as empresas que passam bem por crises são as que trabalharam sua produtividade antes delas chegarem. TI que eleva a produtividade do time é TI que protege a empresa.
  • Orçamento contínuo: o João Vitor descreveu o modelo da Lear, que a empresa chama de "zero mais doze" (doze meses sempre rolando), como a forma mais eficaz de manter o orçamento conectado com a realidade operacional.
  • Educar gestores: o Bruno Leite resumiu bem: o ciclo de orçamento melhora com prática. Começa péssimo, vai ficando ok, depois fica bom. Cada ciclo que os gestores passam pelo processo os torna mais capazes de planejar com antecedência.

Esses princípios se conectam ao que está documentado em cultura orçamentária e no debate sobre como engajar os colaboradores no orçamento.

O que tirar para o próximo ciclo de planejamento

Se você é gestor de TI ou está na controladoria suportando o processo de TI, três perguntas práticas para o próximo ciclo:

1. Seu histórico ainda é confiável? Se a estratégia da empresa mudou significativamente nos últimos dois anos, a base histórica pode estar distorcida. Vale considerar um processo de base zero para as maiores rubricas, mesmo que não seja para o orçamento inteiro. O orçamento base zero não precisa ser tudo ou nada.

2. Você sabe separar ROI de ROV? Antes de entrar na reunião de aprovação do orçamento, categorize cada projeto: quais têm retorno financeiro calculável e quais são habilitadores de qualidade. Defenda cada um com a métrica correta. A diretoria que não entende de TI entende de risco operacional.

3. O orçamento de TI está alinhado com onde a empresa quer estar em dois anos? O Bruno Leite deixou o ponto mais importante: os projetos estruturantes de longo prazo não aparecem no P&L de 2025, aparecem na competitividade de 2027. Planejar só para resolver o ano corrente é correr atrás do próprio rabo.

Para quem quer um guia completo sobre o tema, o Guia de Orçamento de TI reúne os principais critérios para planejar, priorizar e defender cada rubrica. Para aprofundar o tema de planejamento de despesas, vale ler sobre como elaborar o orçamento de despesas operacionais e sobre orçamento de investimentos. Quem quer entender a metodologia de revisão que mantém o orçamento relevante ao longo do ano encontra mais em revisões orçamentárias e em acompanhamento planejado x realizado.

E quando quiser sair da planilha e acompanhar o P×R da TI com os dados do seu ERP entrando automaticamente, experimente o Treasy de graça e veja o orçamento virar a régua do dia a dia do time.

Perguntas frequentes

Quando vale migrar de orçamento base histórico para orçamento base zero na TI?
Quando a estratégia da empresa mudou significativamente e o histórico deixou de ser um guia confiável. O sinal prático é perceber que algumas rubricas crescem só por correção monetária enquanto áreas estratégicas ficam subfinanciadas. O base zero força a revisão de cada rubrica pela necessidade real, não pelo que foi gasto antes.
Como decidir o que terceirizar e o que manter internamente na TI?
O critério correto começa pela qualidade esperada: o que é feito melhor fora do que dentro? Quando a atividade não é o núcleo da empresa e existe um fornecedor cuja especialidade é exatamente aquela atividade, terceirizar tende a ser mais eficiente. O custo é filtro secundário, não ponto de partida.
O que é ROV e por que ele importa para o orçamento de TI?
ROV é retorno sobre o valor (value), diferente do ROI, que mede retorno financeiro direto. Investimentos como servidor de e-mail corporativo, antivírus ou link dedicado não geram receita incremental mensurável, mas entregam qualidade de operação, segurança e redução de risco. Defender esses itens pela lente do ROV, não do ROI, é a forma correta de apresentá-los à diretoria.
Como a área de TI deve defender o orçamento para a diretoria?
Separando os projetos em dois grupos: os que têm retorno financeiro calculável (migração de sistema, troca de tecnologia com redução de custo) e os habilitadores de infraestrutura (e-mail, segurança, conectividade). Para o primeiro grupo, apresente ROI e payback. Para o segundo, apresente o risco operacional que o investimento evita e o padrão de entrega que ele garante.
Itens como impressoras e softwares de área específica devem ficar no orçamento de TI ou na área usuária?
O modelo que emergiu do painel é: infraestrutura pesada (servidores, links, parque de equipamentos) fica com TI. Softwares e equipamentos de uso exclusivo de uma área são levantados pela área, enviados para TI validar tecnicamente, e depois decididos em conjunto. Isso combina o conhecimento tecnológico de TI com o contexto de quem vai usar.
Como evitar que o escopo do orçamento de TI cresça além do razoável?
Definindo claramente o que compete à TI versus o que pertence à operação. Um cuidado apontado no painel: itens como ar-condicionado (mesmo que resfrie servidores) não deveriam ir para o orçamento de TI. Essa expansão de escopo dificulta a defesa do orçamento e confunde responsabilidades.
Como uma empresa de crescimento acelerado deve construir o orçamento de TI e P&D?
Usando benchmark de mercado como premissa (quanto se espera gastar em P&D para o estágio da empresa) combinado com o crescimento projetado de receita. O histórico entra para os itens que escalam linearmente com clientes ou usuários. Projetos estruturantes de longo prazo devem ter business case próprio e ser discutidos separadamente dos custos operacionais.
Como uma multinacional lida com orçamento de TI quando há diretrizes externas da matriz?
O relato da Lear Corporation mostrou que a autonomia regional pode ser alta mesmo em multinacional. A matriz define diretrizes estratégicas (abertura de plantas, metas de crescimento), e a operação regional tem quase total autonomia sobre como alocar o orçamento dentro desse quadro, desde que o valor aprovado seja cumprido. O desafio maior é o acompanhamento minucioso da execução, exigido por Sox e auditoria.
O que é o modelo 'zero mais doze' de acompanhamento orçamentário?
É uma variação do orçamento contínuo: a empresa sempre mantém doze meses à frente planejados, revisando mensalmente. Em vez de um orçamento anual fixo, o horizonte de planejamento avança junto com o tempo. O João Vitor descreveu esse modelo como a forma que a Lear encontrou para manter o orçamento conectado com a realidade operacional e responder rapidamente a eventos como abertura de novas plantas.
Como proteger o orçamento de TI da variação cambial quando parte dos custos é em dólar?
Algumas abordagens combinadas: negociar contratos com fornecedores internacionais para ter previsibilidade de valor; identificar projetos que reduzam volume de consumo em moeda estrangeira; fazer compras próximas ao momento de uso em vez de antecipar muito; e, para exposição relevante, considerar hedge cambial (NDF, contratos futuros) em parceria com o banco.
Por que a TI é frequentemente vista como 'mal necessário' pela diretoria?
Porque a maioria dos investimentos de TI não aparece diretamente na receita. O problema é que o gestor de TI frequentemente tenta provar ROI onde o argumento correto é ROV. Quando a diretoria não vê a conta de retorno financeiro fechar, classifica o gasto como custo inevitável. Mudar a linguagem da defesa, mostrando risco evitado e qualidade de entrega, é o que reverte essa percepção.
Qual o papel da controladoria no processo de orçamento de TI?
Funcionar como 'advogado do diabo': questionar cada rubrica, validar o alinhamento com a estratégia, e garantir que o orçamento de TI seja coerente com o orçamento da empresa como um todo. O Walfredo destacou que a controladoria é um suporte indispensável para fazer o acompanhamento mensal bem feito e para que o gestor de TI chegue à aprovação com os argumentos corretos.
Como saber se o orçamento de TI está alinhado com a estratégia da empresa?
A pergunta é: os investimentos previstos viabilizam onde a empresa quer estar em dois a três anos? O Bruno Leite apontou que projetos estruturantes de longo prazo precisam entrar no orçamento mesmo antes de ter ROI claro, porque são eles que permitem a escala futura. Fazer orçamento só para resolver o ano corrente é correr atrás do próprio rabo.
Qual a melhor prática para apresentar projetos novos que não têm histórico?
Preparar um business case com cenários: o que melhora com o investimento, o que a empresa perde sem ele (perda de competitividade, entrada de um concorrente usando aquela tecnologia) e uma estimativa de quando os resultados aparecem. O Julio Campos destacou que falta na TI a habilidade de quantificar financeiramente tanto o ganho quanto o risco de não investir.
O primeiro orçamento de TI vai ser bom?
Provavelmente não, e tudo bem. O Bruno Leite foi direto: quem começa a fazer orçamento erra grotescamente no primeiro ciclo. A cada ano o processo melhora, os gestores ficam mais precisos e a 'máquina' de planejamento vai ficando mais calibrada. O exercício contínuo é o que constrói a maturidade orçamentária.

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