
Pesquisa do APQC com mais de mil empresas ao redor do mundo encontrou um número que incomoda: profissionais de finanças, controladoria e planejamento passam 49% do tempo processando informações operacionais (conferindo se as contas estão sendo pagas, gerando notas fiscais, consolidando planilhas). Só 17% do tempo vai para o que de fato importa: extrair análises que orientem decisões.
Se o seu time sente que não sobra tempo para o estratégico, essa proporção explica o problema. E o ponto de partida para mudar não é contratar mais gente nem pedir horas extras: é entender onde a produtividade está vazando.
O papel da Controladoria na engrenagem da empresa
Antes de falar em produtividade, vale ter clareza sobre o que a Controladoria deveria estar fazendo. Ela é o meio-campo da empresa: conecta o estratégico (o que a diretoria planeja) ao operacional (o que cada departamento executa). É esse time que traduz o planejamento estratégico em números, alinha expectativas de crescimento com cada área e acompanha, mês a mês, se o que foi planejado está sendo entregue.
Em empresas maiores, com processos mais maduros, esse papel é bem definido. Em empresas de médio porte, o que acontece com frequência é diferente: a Controladoria existe, mas a empresa não sabe exatamente o que esperar dela. E aí começa o acúmulo: o controller veste o chapéu do financeiro, cuida de contas a pagar, verifica boletos, confere notas fiscais. Ou o caminho inverso: o financeiro absorve toda a função de controladoria.
O resultado é que a pessoa certa para analisar resultados fica presa na operação. E produtividade do time financeiro vai pelo ralo.
O exercício de reflexão que revela o problema
Um ponto prático levantado no webinar é um exercício simples que qualquer controller pode fazer hoje: separe, num papel, quanto tempo da sua semana você passa em tarefas puramente operacionais versus tempo que gera análise para a empresa.
A maioria que faz esse exercício se surpreende. Quando a conta mostra que mais da metade do tempo vai para trabalho que uma ferramenta ou um processo melhor resolveria, o caminho fica mais claro. Não é questão de trabalhar mais, é questão de trabalhar diferente.
Isso vale para a área de marketing, para a de projetos e para qualquer função que mistura entregas estratégicas com demandas operacionais do dia a dia.
Orçamento descentralizado: produtividade além da ferramenta
Um dos pontos mais discutidos no webinar foi o orçamento descentralizado. No modelo centralizado, a Controladoria dita os números e notifica cada área. No descentralizado, cada gestor pensa nos próprios números, com o suporte da controladoria para consolidar e apresentar.
O ganho de produtividade não é só para o time financeiro. Quando o gestor de marketing participa do planejamento de marketing e o gestor comercial responde pelas metas de vendas, dois efeitos aparecem:
- A informação fica mais precisa, porque quem projetou conhece a operação.
- O engajamento aumenta, porque o orçamento deixa de ser uma ferramenta de cobrança e vira um instrumento de gestão do próprio departamento.
No modelo centralizado, o orçamento é algo que acontece para o gestor. No descentralizado, é algo que ele constrói. Essa diferença de percepção muda como cada área trata os desvios, justifica variações e colabora no acompanhamento mensal.
Para a Controladoria, o ganho prático é direto: em vez de ir atrás de cada departamento, os gestores acessam a plataforma e informam os próprios números, e o sistema já consolida tudo e gera o demonstrativo de resultado, sem planilha circulando por e-mail, sem consolidação manual e sem perda de versão.
Quando o prazo de um mês virou uma semana
O caso da GEMED, operadora de plano de saúde apresentada no webinar, ilustra bem o impacto prático. O processo de planejamento orçamentário da empresa durava de dois a três meses (começava em outubro e terminava em janeiro, quando boa parte das premissas já estava defasada pelo crescimento acelerado da empresa).
Quando precisaram simular a abertura de um novo hospital e calcular o impacto no resultado, o processo levou um mês em planilha.
Depois da implantação de uma ferramenta de gestão orçamentária: o planejamento foi para uma semana. A simulação de cenários caiu para dias. E a Controller da GEMED passou a ter visibilidade das metas do comercial em tempo real, podendo convocar revisões e ajustar targets no meio do mês, algo que antes não existia. A estimativa interna foi de eliminação de cerca de 90% do trabalho operacional da Controladoria.
É o tipo de resultado que aparece quando a ferramenta resolve o problema certo: não é automação pela automação, é liberar o controller para fazer o que o controller deveria estar fazendo: análise e tomada de decisão.
Gestão de tarefas e projetos: o lado operacional que ninguém vê
O webinar trouxe um ponto que vai além da área financeira: a perda de produtividade também vem de não saber, em tempo real, quem está trabalhando em quê.
Em times de marketing ou de projetos, o que acontece com frequência é que demandas surgem no meio da semana e tomam tempo de projetos que são prioridade. Sem visibilidade do que cada pessoa está fazendo, é difícil saber se um recurso caro está sendo usado na tarefa certa.
Empresas que adotaram ferramentas de gestão de tarefas relataram ganhos concretos: um site que levava um mês para ser entregue passou a ficar pronto em 48 horas. Times de marketing triplicaram a produção de conteúdo sem contratar ninguém. Em média, as empresas relatam ganho de 25% de produtividade (equivalente a um dia a mais por semana para cada pessoa no time).
A lógica é a mesma do orçamento descentralizado: quando todo mundo sabe quais são as prioridades e quanto cada um tem de capacidade disponível, as decisões de alocação ficam melhores.
A mudança cultural que antecede a ferramenta
Um ponto levantado pelos participantes do chat no webinar merece atenção: ferramenta por ferramenta não funciona. Uma plataforma nova sem mudança de mindset vira mais uma coisa a preencher, não menos trabalho.
O que aparece nos casos de sucesso é sempre uma pessoa dentro da empresa que assume a implantação como projeto próprio, que puxa a bandeira e faz acontecer. Esse "pai da implantação", como foi chamado no webinar, é quem garante que a ferramenta seja usada direito e que os dados entrem com qualidade suficiente para gerar as análises que justificaram a compra.
Há também uma resistência que é característica de países em desenvolvimento: o medo de que a ferramenta exponha ineficiências. De que ficar visível o quanto o time está improdutivo leve a cobranças ou demissões. Na prática, o oposto acontece: a visibilidade permite identificar onde o processo falha e corrigir antes que o problema vire crise.
| Fonte do problema | Sintoma típico | Alavanca de melhoria |
|---|---|---|
| Acúmulo de funções (controller + financeiro) | Sem tempo para análise; relatórios atrasados | Separar papéis; definir escopo da Controladoria |
| Orçamento centralizado | Processo longo; gestores desengajados; dados imprecisos | Migrar para [orçamento descentralizado](../orcamento-descentralizado-na-pratica/) |
| Planilhas como sistema central | Consolidação manual; risco de versão; horas extras | Ferramenta com consolidação automática e controle de acesso |
| Falta de visibilidade de tarefas | Recursos alocados em demandas de baixa prioridade | Gestão à vista: painel com o que cada um está trabalhando |
| Resistência cultural à ferramenta | Implantação que não decola; uso parcial | Champion interno; treinamento focado no ganho concreto |
Por onde começar
Quem está no começo não precisa de um projeto de seis meses. O webinar deixou uma sugestão direta: comece mapeando onde o tempo está indo. Um dia fazendo esse exercício já mostra as maiores perdas.
Se a Controladoria está presa no operacional, o passo seguinte é avaliar se existe uma ferramenta que resolve aquele trabalho específico: seja a consolidação do planejamento, o acompanhamento do Planejado × Realizado ou a geração automática de desvios. Para quem quiser ver esse impacto em números, o infográfico sobre automação no processo orçamentário mostra como cada etapa automatizada libera horas do time. Cada hora liberada do operacional é uma hora disponível para analisar os números e gerar as análises que orientam as decisões da diretoria.
Para times que já têm algum processo organizado, o próximo nível é a descentralização: colocar os gestores como responsáveis pelos próprios números e usar a Controladoria como orquestradora, não como digitadora. Com isso, o acompanhamento orçamentário Planejado × Realizado deixa de ser um relatório que a Controladoria monta e vira uma conversa que toda a empresa tem.
A conversa também se conecta a um tema mais amplo: como engajar os colaboradores no orçamento empresarial e criar uma cultura de planejamento que sustente o crescimento sem depender de horas extras ou de mais gente fazendo o mesmo trabalho de forma manual.
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