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Tecnologia, Dados e IA em Finanças Controller Cast

Controller Cast #68 – IA em finanças: Comprar é fácil. Implementar é desconfortável

Entenda como a tesouraria estratégica pode proteger o caixa, antecipar riscos, melhorar o relacionamento com bancos e se conectar com FP&A, Controladoria e IA.

Neste artigo

Todo mundo está falando de inteligência artificial em finanças. Nos posts, nos eventos, nas reuniões de diretoria. Mas, enquanto a discussão gira em torno de qual ferramenta usar, um problema mais silencioso, e mais decisivo, continua sem resposta na maioria das empresas: os dados que alimentam essa IA são confiáveis? Existe uma regra clara sobre o que pode e o que não pode? As pessoas foram preparadas?

No episódio #68 do Controller Cast, conversamos com Eneile Guimarães sobre exatamente isso: a aplicabilidade real da IA em finanças e por que governança e estrutura de dados são o que separa a IA que gera valor da IA que só gera risco.

Eneile tem mais de 25 anos de carreira em finanças. Começou como jovem aprendiz aos 14 anos, numa empresa de RH, e passou por praticamente todos os degraus da área (de analista a controller, gerente e CFO). Hoje atua como conselheira, empresária e cofundadora da BControlTech, uma DataTech especializada em estruturar dados e aplicar IA e automação em finanças. Para entender IA aplicada a negócios, ela foi buscar conhecimento na fonte: passou temporadas nos Estados Unidos, no Vale do Silício, e 22 dias na China.

Reunimos abaixo os principais insights da conversa. E você pode assistir ao episódio completo no vídeo:

Capa do vídeo: YouTube video playerVídeo · YouTube

De jovem aprendiz ao conselho: Uma visão sistêmica de finanças

Eneile faz questão de começar pela origem. Para ela, a trajetória explica a forma como enxerga o problema: uma visão sistêmica, plural, construída degrau por degrau. Foi a vivência em praticamente todas as áreas de finanças que criou a bagagem para liderar o tema de muitas perspectivas sem, como ela diz, ter pulado nenhum degrau.

A inteligência artificial, aliás, não entrou na vida dela nos últimos dois anos. Entrou há mais de uma década, quando ainda estava na controladoria de uma multinacional e esbarrou numa dor concreta: o volume de dados. "Se eu não entendesse de tecnologia, eu seria só mais uma na multidão", lembra. Foi estudar estrutura de dados, automação, SQL e Python, “na unha”. Quando o ChatGPT chegou, em 2022, aquilo foi "a cereja do bolo" de uma jornada que ela já vinha construindo havia anos.

Consumo ou construção: Por que o Brasil colhe pouco da IA

Uma das provocações mais fortes do episódio é sobre mentalidade. Segundo Eneile, lá fora(no Vale do Silício e na China) existe uma cultura de construção de tecnologia. No Brasil, predomina a cultura de consumo. "O Brasil não é AI-first. É AI early-adopter", resume. A gente adota rápido, coloca para rodar rápido, mas nem sempre faz o melhor uso da ferramenta.

Na prática, isso aparece na diferença entre uma IA isolada e uma IA de ponta a ponta. Aqui, a maioria usa IA de forma horizontal e pontual (o ChatGPT ou o Claude para perguntas e respostas). Lá fora, constrói-se tecnologia vertical: pega-se um processo do começo ao fim e automatiza-se com segurança. E, no centro dessa diferença, está o investimento em infraestrutura.

Sem dados, a IA não sobrevive

Aqui está o destaque dessa conversa. "A IA generativa se alimenta de dados. Sem dados, ela não vive", diz Eneile. E é justamente na base que mora o maior gap brasileiro: queremos a automação, o resultado por um clique, mas não queremos trabalhar o dado que sustenta tudo isso.

Ela lembra de um erro que finanças cometeu ao longo dos anos: pular etapas. Vivemos o boom dos ERPs, depois o boom dos dashboards e do BI,  "agora vamos ter todos os indicadores numa tela só", mas nunca voltamos para olhar a base. O resultado ela viu em muitas reuniões de conselho e de diretoria: a visualização linda, tudo em gráfico, e o número por baixo inconsistente. O comercial dizia que aquela não era a margem; alguém dizia que o número não estava certo.

É aqui que o tema encosta diretamente na rotina de quem trabalha com planejamento e acompanhamento orçamentário. O cuidado (ou a falta dele) com o dado na origem determina a confiança em tudo o que vem depois: orçado versus realizado, análise de desvios, indicadores. Como resumiram na conversa, é o velho "garbage in, garbage out": dado ruim na entrada, decisão ruim na saída. E, agora, uma automação que apenas repete o erro com mais velocidade.

Nem tudo é IA generativa: A ferramenta certa para cada etapa

Um dos pontos mais úteis do episódio é técnico, mas simples: nem todo problema de finanças se resolve com IA generativa. Boa parte do trabalho de planejamento, forecast e rolling forecast é feita com modelos matemáticos determinísticos, ou seja, terreno de IA preditiva, não generativa. "Talvez seja esse o maior erro: usar a ferramenta errada", provoca.

A generativa ainda é ruim para capturar, tudo junto, fatores geopolíticos, variação cambial e sazonalidade em projeções complexas. Por isso Eneile defende um conhecimento mínimo de tecnologia dentro de finanças: saber o que é uma API, um RPA, um script em SQL ou Python, um banco de dados, um catálogo de dados. Sem isso, o profissional pede algo para a IA sem saber o que ela aciona por trás. E é aí que os erros começam a aparecer.

Governança na prática: A regra do jogo

Governança, para Eneile, não é burocracia nem processo engessado. É clareza sobre a regra do jogo: o que pode, o que não pode e como se procede. No dia a dia de quem fecha o mês, isso significa saber qual dado pode entrar numa ferramenta de IA e qual não pode, o que é LGPD, o que é dado estratégico e o que é dado sensível.

Ela alerta para os dois extremos: quem usa a LGPD como desculpa para não fazer nada (mesmo com dado financeiro que não tem informação pessoal sensível) e quem, do outro lado, joga na IA informação que jamais deveria expor. Colocar num chatbot um dado sensível de folha de pagamento pode virar risco jurídico e reputacional. Governança, então, é também letrar as pessoas: esta ferramenta está habilitada, use neste formato, para isto pode, para aquilo não.

A incoerência que ninguém quer enxergar

Foi um dos momentos mais reveladores. De um lado, as empresas cobram performance: prazos de fechamento mais curtos, mais entrega, mais qualidade. De outro, não pavimentaram o caminho (não deixaram claro o que o time pode ou não fazer com IA). O resultado é previsível: as pessoas levam o celular, mandam o arquivo por e-mail, sobem os dados num ChatGPT ou Claude pessoal e devolvem a análise, porque estão sendo cobradas.

Ou seja: dado da empresa trafegando por ambientes não seguros, todos os dias, enquanto se finge que não acontece. Ignorar isso não elimina o risco, só o esconde.

Comprar é fácil, implantar é desconfortável

A frase que dá o tom do episódio tem uma explicação. O desconforto da implementação vem de ser obrigado a olhar para o que a empresa vinha adiando: o preparo das pessoas, a infraestrutura de dados e a governança. E, principalmente, uma pergunta que quase ninguém faz antes de começar: por que e para que eu quero usar IA?

Quando essas etapas são puladas — geralmente por FOMO, pela sensação de que "o concorrente já usa" e de que se é "a última pessoa do financeiro sem IA" —, pula-se justamente a base que faz a IA entregar retorno.

Onde a IA gera retorno de verdade em finanças

Tirando o hype, Eneile é objetiva sobre onde a IA já entrega bem hoje em finanças: conciliação, orçado versus realizado, preparação de relatórios executivos e reportes. E vai além, propondo uma virada de raciocínio. A maioria pergunta "onde eu coloco IA para reduzir custo?". Para ela, essa pergunta já deveria estar superada. A que gera valor de verdade é outra: "o que eu consigo fazer agora que antes não era possível?".

É por isso que ela acredita em usar IA para criar, por exemplo, uma solução em Python que melhore a qualidade do dado e mantenha a governança do processo, para só depois consumir esse dado em análises mais sofisticadas. A IA como ferramenta para construir a base, e não apenas para responder perguntas.

A jornada que funciona: Começar pela controladoria

O maior erro, na visão dela, é fazer automações descentralizadas. A jornada de IA precisa ser corporativa e institucional: a empresa decide por que vai usar, onde, com que prioridade e quanto vai investir. O que funciona, com dado na mão, é finanças puxando a transformação, começando na controladoria e transbordando para contabilidade, tesouraria, compras e planejamento de produção, até virar um projeto corporativo (em alguns casos, inclusive vinculado a programas de incentivo, como PPR).

Por que começar pela controladoria? Por dois motivos. Primeiro, visibilidade: é a área que reporta o resultado mensal e está próxima de quem decide. Segundo, técnica: é ela que consolida os dados de toda a empresa (do CRM à folha, do ERP às operações). Some a isso o momento (nova complexidade regulatória, reforma tributária e um cenário econômico mais apertado) e a conclusão de Eneile é direta: não há momento mais estratégico para a área financeira assumir esse protagonismo. E, no fim, o objetivo é a empresa conquistar soberania sobre seus dados e sua tecnologia, sem ficar refém de um único fornecedor de IA.

Por onde começar

Para quem quer sair do episódio e agir, Eneile propõe três passos. Primeiro, olhar a própria jornada e decidir, de verdade, se quer viver essa transformação. Segundo, montar um plano de desenvolvimento individual, uma espécie de SWOT da carreira: forças, fraquezas, riscos e oportunidades, no técnico e no comportamental. Terceiro, traçar um plano factível, com equilíbrio de vida, combinando hard e soft skills.

Ela lembra que a régua mudou: a pós-graduação virou o novo "ter faculdade" e o inglês passou a ser o mínimo. O diferencial competitivo agora está em incorporar temas que antes pareciam distantes de finanças — de IA a, dependendo do caso, geopolítica — não para virar especialista, mas para entender como impactam a decisão do negócio.

Uma geração em transição

No encerramento, Eneile deixa um recado que vale para além de finanças. Vivemos um momento de transição, e cada profissional tem uma escolha: liderar a transformação ou assistir a ela. "Se posicione e não se desespere." O primeiro passo é aceitar que ninguém dá conta de acompanhar tudo (a tecnologia avança mais rápido do que nossa capacidade de processá-la) e tudo bem. A partir daí, liderar a mudança começa em cada um: é uma decisão individual, não algo que a empresa fará por você.

O episódio #68 do Controller Cast é uma conversa essencial para controllers, profissionais de FP&A, contadores, CFOs e líderes que querem tirar a IA do hype e colocá-la para trabalhar sobre uma base sólida de dados, governança e pessoas. Assista à conversa completa e compartilhe com quem precisa parar de correr atrás da ferramenta e começar a cuidar do que vem antes dela.

Perguntas frequentes

Por que a IA em finanças depende tanto da qualidade dos dados?
Segundo Eneile Guimarães, a IA generativa se alimenta de dados e, sem dados, ela não vive. Quando a base é inconsistente, a IA apenas processa e repete o erro com mais velocidade, no clássico garbage in, garbage out: dado ruim na entrada, decisão ruim na saída.
O que é governança de dados na prática, segundo Eneile Guimarães?
Governança não é burocracia nem processo engessado: é clareza sobre a regra do jogo, ou seja, o que pode, o que não pode e como se procede. No dia a dia, significa saber qual dado pode entrar numa ferramenta de IA, o que é LGPD, o que é dado estratégico e o que é dado sensível.
Qual a diferença entre a cultura de tecnologia do Brasil e a do Vale do Silício e da China?
Segundo Eneile, no Vale do Silício e na China existe uma cultura de construção de tecnologia, enquanto no Brasil predomina a cultura de consumo: adota-se rápido, coloca-se para rodar rápido, mas nem sempre se faz o melhor uso da ferramenta.
O que significa AI early-adopter em vez de AI-first?
Na visão de Eneile, o Brasil não é AI-first, é AI early-adopter. Isso significa que o país adota tecnologias de IA rapidamente, mas de forma horizontal e pontual (como usar o ChatGPT para perguntas e respostas), em vez de construir tecnologia vertical que automatiza um processo inteiro do começo ao fim.
Por que muitas empresas têm painéis bonitos mas números inconsistentes?
Porque finanças pulou etapas ao longo dos anos: viveu o boom dos ERPs, depois o boom dos dashboards e do BI, mas nunca voltou para olhar a base de dados. O resultado aparece em reuniões de conselho, com a visualização em gráfico bonita e o número por baixo inconsistente, gerando divergência sobre qual é a margem real.
O que significa garbage in, garbage out aplicado às finanças?
A expressão resume a ideia de que dado ruim na entrada gera decisão ruim na saída. Com a IA, esse problema não desaparece, apenas ganha velocidade: uma automação mal alimentada apenas repete o erro mais rápido.
A IA generativa serve para qualquer problema financeiro?
Não. Boa parte do trabalho de planejamento, forecast e rolling forecast é feita com modelos matemáticos determinísticos, terreno de IA preditiva, não generativa. A IA generativa ainda é ruim para capturar, ao mesmo tempo, fatores geopolíticos, variação cambial e sazonalidade em projeções complexas.
Qual a diferença entre IA generativa e IA preditiva em finanças?
A IA generativa é mais indicada para tarefas como conciliação, preparação de relatórios executivos e reportes, enquanto a IA preditiva, baseada em modelos matemáticos determinísticos, é a ferramenta certa para planejamento, forecast e rolling forecast. Usar a ferramenta errada para cada etapa é, segundo Eneile, um dos maiores erros do mercado.
Por que comprar é fácil e implementar é desconfortável quando se trata de IA?
Porque o desconforto da implementação vem de ser obrigado a olhar para o que a empresa vinha adiando: o preparo das pessoas, a infraestrutura de dados e a governança. Muitas vezes essas etapas são puladas por FOMO, pela sensação de que o concorrente já usa, o que compromete justamente a base que faz a IA entregar retorno.
Quais riscos existem quando um colaborador sobe dados da empresa em um ChatGPT pessoal?
Quando a empresa cobra performance sem deixar claro o que pode ou não ser feito com IA, as pessoas acabam mandando arquivos por e-mail e subindo dados em ferramentas de IA pessoais para dar conta da entrega. Isso pode fazer dado sensível, como informação de folha de pagamento, trafegar por ambientes não seguros todos os dias, virando risco jurídico e reputacional.
Onde a IA já gera retorno de verdade em finanças, segundo Eneile?
Hoje a IA já entrega bem em conciliação, orçado versus realizado, preparação de relatórios executivos e reportes. Mais do que reduzir custo, a pergunta que gera mais valor é: o que eu consigo fazer agora que antes não era possível?
Por que a controladoria é o ponto de partida ideal para a jornada de IA em uma empresa?
Por dois motivos: visibilidade, porque é a área que reporta o resultado mensal e está próxima de quem decide, e técnica, porque é ela que consolida os dados de toda a empresa, do CRM à folha de pagamento, do ERP às operações. A partir da controladoria, a jornada tende a se espalhar para contabilidade, tesouraria, compras e planejamento.
Por que a jornada de IA não deve ser feita de forma descentralizada?
Porque o maior erro, na visão de Eneile, é fazer automações descentralizadas sem que a empresa decida, de forma corporativa e institucional, por que vai usar IA, onde, com que prioridade e quanto vai investir. Sem esse direcionamento, o resultado tende a ser esforço disperso sem retorno consistente.
Que conhecimento mínimo de tecnologia um profissional de finanças deveria ter?
Eneile defende que o profissional saiba, no mínimo, o que é uma API, um RPA, um script em SQL ou Python, um banco de dados e um catálogo de dados. Sem esse conhecimento básico, a pessoa pede algo para a IA sem entender o que ela aciona por trás, e é aí que os erros começam a aparecer.
Qual é a pergunta certa para avaliar onde aplicar IA, segundo Eneile?
Em vez de perguntar onde colocar IA para reduzir custo, a pergunta que gera valor de verdade é: o que eu consigo fazer agora que antes não era possível? Isso inclui usar IA para construir e melhorar a qualidade da base de dados, e só depois consumir esse dado em análises mais sofisticadas.
Quem é Eneile Guimarães?
Eneile tem mais de 25 anos de carreira em finanças, começou como jovem aprendiz aos 14 anos numa empresa de RH e passou por praticamente todos os degraus da área, de analista a controller, gerente e CFO. Hoje atua como conselheira, empresária e cofundadora da BControlTech.
O que é a BControlTech?
BControlTech é uma DataTech cofundada por Eneile Guimarães, especializada em estruturar dados e aplicar IA e automação em finanças.

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